sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Como funciona uma feira de adoção de animais




Por dois sábados, tive o prazer de ser voluntária junto à feira de adoção de animais organizada pela  AU MIAU Protetores Independentes, que acontece todo sábado na Praça Afonso Pena, Tijuca.
As feiras de adoção de filhotes são eventos comuns e populares, a gente passa pelas pracinhas, vê uma enorme barraca aberta, mesas estendidas com suas gaiolas de animais, pessoas bem dispostas esclarecendo dúvidas, pranchetas de cadastro, sacos de ração, potes de água, pilhas de jornal, roupinhas (confeccionadas pessoalmente pelos voluntários) para o frio e claro, quem é de fora nem imagina a trabalheira que envolve aquela infraestrutura toda.

Os animais, se não pertencerem a um abrigo específico, provavelmente são abrigados na própria casa dos protetores, que arcam tudo com recursos próprios. Então, uma senhorinha que mantém digamos 23 gatos e outros tantos cães em dúzias, nos finais de semana, ainda arma e desarma um acampamento e transporta todos os animais que, pela experiência dela, podem ser adotados.

Aí, você que não castrou nem o cão que comprou num pet shop, encosta e pergunta na maior se elas não teriam um poodle. Não tem, nem é para ter. 
Essas pessoas recolhem esses animais da rua, quando um irresponsável não abandona uma caixa de papelão cheia de filhotinhos sem raça definida na porta da casa delas, afinal são conhecidos como pessoas que recolhem e dão um jeito num problema de saúde pública que é responsabilidade de todos, principalmente do governo, já que animais são vetores de transmissão de doenças. No Japão, é proibido manter cães não castrados microchipados. Caso, o dono seja pego, o animal é recolhido e sacrificado. A nação mais desenvolvida do mundo, sobrevive com recursos limitados dentro de uma ilha, tem obsessão por higiene e encara animais domésticos como uma questão sanitária rigorosamente controlada. A nossa cultura de criadouros e cruzamentos é uma ignorância de país subdesenvolvido.

Eu adotei 3 cães, 3 viralatas que castrei e microchipei. Nesses 7 anos de vida canina com viralatas conhecidos por aguentar qualquer tranco, só precisei comprar medicamento em 2 ocasiões distintas para problemas muito esporádicos e de cura rápida. Meus cães de rua só dão despesa de ração, vermífugo e vacina. Uma delas foi inclusive "comprada" de um morador de rua, pois a antiga tutora havia abandonado uma caixa cheia de filhotinhos junto a um bando de mendigos, dando a eles a responsabilidade que era dela por não ter castrado seu animal. O que essa tutora esqueceu é que não existem animais de rua, nenhum animal nasce e sobrevive na rua por muito tempo. O viralata que dorme debaixo de uma marquise é um cão abandonado ou que fugiu e se perdeu.

Não existe animal comprado sustentável, na verdade já existem mais cães e gatos do que pessoas no mundo. Cada cão-gato adotado, é mais uma vaga que se abre no abrigo e assim, a chance de tirar mais um animal da rua.
O animal que você compra num pet shop é mais um de uma ninhada que é encarada como um produto. As fêmeas são fecundadas em todos os cios e vão parir até morrer, normalmente de hemorragia. Os filhotes machos que não forem adotados, serão provavelmente sacrificados, por não terem nenhuma serventia a um criador. Independente de quaisquer questões de pedigree, toda raça de cão moderno é uma deturpação resultante de milhares de cruzamentos não aleatórios em busca de um produto comercialmente aceitável, como o tal poodle, que inacreditavelmente descende dos primeiros lobos domesticados.

Não compre, adote. Castre sempre, em quaisquer circunstâncias. Castrar é um ato de amor chancelado por 100% dos veterinários, afinal um único casal de cães pode gerar até 80.000.000 de descendentes em uma década de vida fértil. Um casal de gatos pode gerar até 60.000.
Muitas pessoas têm pena de castrar, mas não querem que o animal cruze por causa dos filhotes. É pior para o animal, que continua com o instinto. O cão castrado, seja macho ou fêmea, tem o processo reprodutivo interrompido e com isso, todas as doenças resultantes do sistema hormonal, não chegam a ocorrer.
Você pode até saber para onde vão os filhotinhos do cão que permitiu cruzar, mas é impossível rastrear para onde vão os filhotinhos dos filhotinhos, é uma progressão geométrica incontrolável, que acaba em bandos de animais famintos sendo atropelados pelas estradas ou morrendo de frio e fome nas ruas. E estamos falando dos que sobreviverem, os filhotinhos largados em caixa de papelão numa praça, provavelmente acabarão sendo predados pelas ratazanas de esgoto.




Flávia, que monta e desmonta toda essa estrutura semanalmente, coloca tudo no seu carro e dirige ida e volta de Maricá, com a gata Gabi, que depois de 1 ano de espera, encontrou uma família.
Flávia é vegana, mas todo sábado, compra com recursos próprios para os outros voluntários pizza e refrigerante, que ela não come. 





Michele, entrevistando um casal de candidatos à adoção




Os animais são tratados com todo carinho, paparicados com lacinhos e abrigados em panos quentinhos.




Ninhada resgatada em São Gonçalo, fofíssimos.







Dupla encontrada num saco de cimento em Vila Isabel. Lindos




Único animal adotado no sábado de primeiro de agosto. É o tipo de coisa que pode acontecer, depois de passar o sábado inteirinho debaixo de sol e chuva, apenas um animal é adotado. Ou mesmo nenhum.






Na próxima vez que passar por uma feira de adoção, não pergunte se tem um dálmata nem faça um discurso "peninha" de castração, não seja maluco nem mal educado. Já que não vai ajudar em nada, pelo menos não atrapalhe. E, como nunca é demais, esses grupos aceitam doações de toda natureza.


As fotos foram todas retiradas da página do AU MIAU do Facebook




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