segunda-feira, 14 de abril de 2014

Páscoa em paz com o resto do mundo



"O mito é o nada que é tudo", Fernando Pessoa

Em 2010 e 2011, o blog trouxe postagens sobre a Páscoa, hoje fora do ar, que compilo juntas abaixo. Não por estarem desatualizadas, mas porque recebi tantas mensagens de mães defendendo coelhos como símbolo de fertilidade em solstícios, ovinhos pintados em casa simbolizando o renascimento, colombas pascais e outras tradições cujas origens não nos dizem nada, que resolvi reunir tudo numa postagem definitiva dando uma ótica monoteísta ao feriado, que por sinal é de origem judaica e agregou todos esses símbolos pagãos da mitologia nórdica e celta numa celebração que hoje não tem mais significado algum.

A propósito, ontem foi Domingo de Ramos e, além da maioria dos cristãos nem ter ideia do fato, não imaginam que o mesmo relaciona-se à Páscoa. Como tampouco sabem que a última ceia antes da crucificação de Jesus, era a comemoração da Páscoa (um jantar de Pessach que viria a tornar-se a nossa Quinta-feira Santa), pois Cristo era judeu de nascimento e ainda não havia sido crucificado. O que hoje oficializamos como eucaristia, foi a comemoração dias após a entrada triunfal em Jerusalém, onde Cristo teria sido recebido numa caminho de ramos pela população. A mesma população que, quando consultada dias depois, escolheu Barrabás, um ladrão violador de mulheres, à Jesus Cristo.








Você já está deixando o bacalhau de molho? Comprou um mundo de ovinhos?
O país inteirinho provavelmente sim, é a força da tradição.

O comércio nos inunda com ovinhos e afins. Paciência. 
Mas a Páscoa está aí e com ela o prato de peixe, os coelhinhos de estimação e uma série de outros hábitos que não sabemos bem quem começou, mas sabe como é, incorporamos por força da tradição.

A Páscoa comemora uma travessia (passagem = pessach) feita pelo povo judeu ao longo de 40 anos por um deserto, guiados por um profeta (Moisés) que os guiou - mas ele mesmo nunca chegou à terra prometida. Numa imensa prova de fé, Deus não os deixou na privação e providenciou fartamente o maná que caía do céu, mas que não podia ser armazenado.
Não tinha ovo de chocolate embalado em celofane com um mundo de açúcar e menos ainda bacalhau.
Moisés só abriu o mar em duas partes para seu "rebanho" atravessar, ninguém aproveitou para pescar nem foi avistado nenhum coelhinho pululando, até porque não há coelhos no deserto.

A propósito, coelho não põe ovo, nem de chocolate. A figura do coelho foi incorporada a um feriado judaico com 5.000 anos de tradição, pois na mitologia nórdica, o coelho, que é um animal tradicionalmente fértil, procriava durante os solstícios e então o mesmo é associado à lua desde o Antigo Egito.
Entendeu? Pois é, não faz muito sentido mesmo.
E não compre um coelhinho vivo para seu filho, o animal reproduz-se na velocidade da luz, não é urbano e, se abandonado, vira a presa das ratazanas de esgoto - veja os porquês dessa covardia  na postagem: Coelhos, o lado B da Páscoa insustentável.


É importante lembrar também que o bacalhau está sob risco de extinção. Nos últimos 30 anos, 70% da sua população mundial desapareceu. A Terra é incapaz de acompanhar ritmo atual de consumo de carnes e pescado e a Pesca Artesanal está sendo substituída sem nenhum critério pela Pesca Industrial, arrasando com áreas nativas de manguezal e levando comunidade pesqueiras tradicionais à falência e suicídio.

"Os oceanos não podem ser considerados uma despense inesgotável, estimou Philippe Cury, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD).
O número de pescadores é duas a três vezes superior à capacidade de reconstituição das espécies.
No atual ritmo, a totalidade das espécies comerciais haverá desaparecido em 2050."

Para dar vazão a todo esse consumo, já estamos comendo golfinhos e tubarões salgados, como bacalhau.
Leia melhor sobre o assunto em The Cove Tubalhau, o contrassenso de Fernando de Noronha Pesca artesanal x Pesca Industrial



Já existem muitas empresas produzindo cacau e chocolate orgânico, incluindo ovos de páscoa inteiramente orgânicos, como anuncia Claudio Ushiwata, no Orgânicos do Brasil.

E é de se estranhar também porque só se faz chocolate de cacau e açúcar de cana, quando existem tantas outras alternativas na natureza, como o cupulate (chocolate do cupuaçu), a amarula e a alfarroba.
A monocultura só interessa ao produtor, leia melhor sobre esse assunto em outra postagem polêmica Soja é desnecessário.


O cupulate é tão importante quanto desconhecido, leia sobre ele no Wikipedia:

O cupulate é um alimento com gosto e textura semelhantes aos do chocolate
A diferença em relação ao chocolate é que na fabricação do cupulate não é utilizado o cacau (Theobroma cacao) mas o cupuaçu (Theobroma grandiflorum), fruta típica da Amazônia.
O cupulate foi o nome dado no Brasil pela Embrapa em 1990 ao chocolate feito de cupuaçu. Nos últimos anos, empresa Asahi Foods, do Japão, foi acusada de biopirataria e de utilizar indevidamente o termo "cupulate" por meio de processos em diversos países do mundo. Com esses processos, a empresa foi obrigada a desistir do uso ilegal do nome "cupuaçu" e do termo "cupulate".
Eu sou grande fã da fruta, para ver outras receitas gostosas com cupuaçu, leia a postagem homônima Cupuaçu, com receita de mousse e geleia caseira, que por sinal combinam perfeitamente com chocolate meio amargo.


Syl Ribeiro escreveu lindamente sobre a alfarroba, leia também:
A alfarroba é um alimento saudável e de elevado valor nutritivo.
Contém vitamina B1 tanto quanto o aspargo ou morango, a mesma quantidade de niacina do feijão fava, lentilha e ervilha, e mais vitamina A do que a beringela, o aspargo e a beterraba. Possui ainda alto teor de vitamina B2, cálcio, magnésio e ferro, bem como um correto balanceamento de potássio e sódio.
A alfarroba não possui qualquer agente alergênico ou estimulante tais como a cafeína e teobromina presentes no cacau.
Mesmo embora ela apresente um alto teor de açúcares a alfarroba possui um baixo conteúdo calórico devido à quantidade quase imperceptível de lipídeos e alta quantidade de fibras naturais.
O efeito benéfico dessas fibras naturais na flora intestinal se dá pela proteção da membrana mucosa do intestino, bem como na redução significativa da incidência de diarréias indefinidas, desordens nutricionais e incidência de úlceras.
Estudos recentes mostraram que a alfarroba não contribui com nenhum tipo de glúten na ingestão de dieta e que possui propriedades antioxidantes.



Dicas de cardápios sustentáveis na postagem da Ceia de Natal, as sobremesas da Ceia (com chocolate), todas as receitas de bolos e tortas de chocolate (incluindo versão Floresta Negra) e um Panetone integral de banana que pode ser feito como Colomba Pascal, se isso é realmente importante na sua casa.

Se você é doido por chocolate ou tem filhos pequenos, pode fazer seus ovos em casa, com um bom chocolate meio amargo orgânico, rapadura, castanhas e frutas secas.
Observe que os grandes produtores de chocolate comercial usam o óleo de palma industrial em seus produtos, esse óleo de palma extraído do dendê está devastando florestas nativas inteiras no mundo todo, veja mais nas postagens: O mito do óleo de palma sustentável Dendê e a destruição de florestas nativas. Para quem não vive sem Nutella, há uma postagem exclusiva para Nutella caseira, ensinando a fazer sem açúcar nas mais diversas versões: crua, vegana, com leite, etc - mas sempre sem açúcar refinado.

Neide Rigo, do Come-se, fez lindos bombons de chocolate (sem açúcar) e recheou com um doce caseiro de bacuri, que pode ser feito com rapadura, como a geleia de cupuaçudamasco (ou qualquer fruta seca polpuda, figo também fica divino), Geleias de frutas vermelhas e Geleias para adulto: pimenta, manga com pimenta rosa, gengibre, vinho quente, hortelã e capim limão que também combinam muito com chocolate.

Para um bombom (ou mesmo ovo) estilo "Nhá Benta", bata claras de ovos caipiras em neve. Junte gotas de limão para deixar mais durinha, as raspas da casca do limão para quebrar o gosto e cubra, já arrumado no bolo, com fios de melado ou geléias caseiras, já que a ideia é a cobertura branquinha e nevada e, adicionando melado e rapadura ao preparo, a mesma vai ficar escura. Para fazer suspiros coloridos, junte às claras em neve, geléias caseiras da cor escolhida, até em verde se usar a geleia de hortelã ou capim limão ou de chocolate, se juntar cacau em pó com melado. Esses suspiros coloridos e doces, são boa dica para cobrir bolos e tortas em geral, permitindo combinações coloridas.

A minha sugestão favorita é simples e pode ser feita na hora, frutas frescas e secas no espeto com calda de chocolate (branco ou amargo) e "crespinho" de castanhas (ou coco ralado), assim:
Faça uma calda de chocolate usando uma barra de chocolate meio amargo com creme de leite fresco e orgânico (ou de cabra-bufala), adoçado com pouca rapadura. Essa calda endurece depois que esfria, e pode ser feita com qualquer leite vegetal caseiro (cococastanhas ou pinhão) na metade da quantidade sugerida para o creme de leite, adoçando com melado inclusive. Sempre dá certo, pode substituir por chocolate branco e serve até para fazer os bombons de frutas secas
Basta dar um banho em qualquer fruta seca ou morango orgânico fresco com essa calda, passar em castanhas moídas ou coco ralado e esperar esfriar.
Banana passa, morango fresco, damasco, abacaxi, figo e pêssego (secos) são os melhores.



Para começar a construir novos símbolos, a partir de uma realidade nossa, de animais da fauna brasileira, animais muitas vezes ameaçados de extinção que não podem ser mantidos numa gaiolinha na área de serviço. A sugestão da Fundação SOS Mata Atlântica: Na compra de qualquer produto, ganhe um macaco de Páscoa em pelúcia!






E talvez o mais importante nisso tudo não seja o coelhinho que você vai deixar de comprar ou o ovinho que vai fazer em casa (não que ambos não sejam), mas mudar um pouco o modo de pensar e tentar incorporar novas tradições, com significados reais que não descabem para corredores de ovos industrializados e caríssimos dos hipermercados.
Eu sempre achei que a Páscoa combinava muito com um grande piquenique debaixo de uma árvore em flor, ainda comum nessa época do ano, cuja temperatura é excelente. O espaço público, cada vez mais raro, tem que ser melhor utilizado. Quem sabe depois da missa, da visita ao orfanato-asilo onde tantas crianças-idosos passam a Páscoa sozinhas...
Esse blog adora um trabalho voluntário, no Natal principalmente, a postagem Natal Sustentável traz muitas sugestões de como fugir do circuito: shopping lotado + supermercado entupido + comemorações esquisitas com gente idem.
E sim, frequentar qualquer templo religioso de qualquer linha nessa época pode trazer uma outra dimensão ao feriado, principalmente para as crianças, que vão acabar ganhando muitos ovinhos baratos e fazer dezenas de coelhinhos de papelão na escola, que vão acabar no lixo, é claro.



Sugestões de leitura: 

"O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, ateu convicto e único escritor de língua portuguesa laureado com o Nobel de Literatura.

"O Jesus muçulmano", de Tarif Khalidi, Professor da cadeira Sir Thomaz Adams de Árabe, Diretor do Centro de Estudos Médio-Orientais e Islâmicos e membro do King´s College, Cambridge.
Para os muçulmanos, Jesus Cristo foi um grande profeta, mas apenas mais um que antecederia à Muhammad (ou Maomé)O Islã não enxerga Jesus Cristo como um salvador, mas apenas como mais um profeta dos muitos no Pentateuco, à maneira de Elias, Baruch, Amós, Isaías e Jeremias - que vieram justamente antecedendo Muhammad, que seria o enviado definitivo. 
Já para os judeus, o Messias ainda não chegou e as palavras de Jesus Cristo e Muhammad, assim como as de Buda, Confúcio e até Kardec, não significam nada. Não estranhe se os judeus (e romanos politeístas) não acharam a menor graça nesse novo Messias de uma mera seita de pescadores (como Jesus Cristo foi considerado). Pedro, que seria a pedra fundamental de um império de mais de 2000 anos, era pescador e Maria Madalena, prostituta.



João 13, 34-35 ; quando da última Ceia em comemoração do Pessach judaico, a Passagem pelo deserto na fuga do Egito, que durou 40 anos. 

"Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.
  Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."








A primeira foto é facebucana e até então sem autoria comprovada, já a primeira charge é do cartunista Rucke e foi dificílima de ser encontrada, afinal quando se digita "Páscoa" e "Moyses" no Google Images, se encontra de tudo (principalmente pornografia com fantasias de coelhinho), exceto a travessia de um povo escravo para a liberdade. Tive que refinar a busca por "Mar Vermelho" para encontrar imagens afins com o tema. A imagem do macaco de Páscoa é obviamente da SOS Mata Atlântica e a última charge do querido Laerte.



Mais informação:
Você ainda come salmão?
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De onde vem o atum da latinha?
O mito do óleo de palma sustentável
Tapetes de Corpus Christi sustentáveis
Bolos integrais e sem açúcar 02: chocolate
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Coelhos de estimação, o lado B da Páscoa insustentável
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
Fazendo Nutella orgânica, sugar-free, vegana, crua ou como você quiser, em casa

2 comentários:

Unknown disse...

Carol querida:

Ótimo post, informativo e reflexivo. Apenas como sugestão adicional, o filme de Scorsese "A última tentação de Cristo" é uma bela obra, tal como "O Homem de Nazaré", de Anthony Burgess (católico convicto), que escreve a vida de Jesus a partir do ponto-de-vista de um grego ateu. Lindo, sólido, potente, irônico, arrebatador...

Beijos, feliz Pessach para todos os humanos

Wellington

Skyline Spirit disse...

pretty nice blog, following :)