quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Para brincar



A maioria das famílias gosta de presentear crianças. Muitas vezes no Natal, só as crianças ganham presentes. É muito comum em casos de crianças pequenas, o presenteado gostar mais do embrulho do que do brinquedo caro. Aos adultos restam às piadas "ano que vem, damos caixa de papelão, sai mais barato."
Muitos pais estão preferindo brinquedos sustentáveis ou envolvendo seus filhos na confecção de brinquedos caseiros, o que são alternativas válidas, desde que não descambem ao pólo oposto: o consumismo "verde".

As ideias abaixo são uma exceção aqui no blog, justamente porque são voltadas para crianças, que perdem muitos brinquedos e fazem da confecção do mesmo o motivo de seus encontros e comemorações de aniversário. A posição daqui do blog é muito radical em relação à reciclagem artesanal e segue na íntegra o início da postagem, A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível:

Hoje, acompanhando a mudança de pensamento na sociedade, vejo que alguns mitos continuam. Em muitos sites de "Faça você mesmo" ou DIY (do it yourself), há um excesso de xingling, ou os produtos baratos chineses das lojas de R$1,99. É como se houvesse uma compensação "não estou comprando um móvel na Tok&Stock nem nas Casas Bahia, mas minha estante descolada em caixote de feira é toda decorada com brinquedinhos xingling multicoloridos". Nem toda customização é sustentável e nem toda reciclagem artesanal pode ser sequer considerada sustentável. O fato de ser improvisado não significa que não tenha deixado sua pegada ambiental.  E é de se observar que se você pagou barato, é porque alguém foi mal pago, a matéria prima foi extraída de qualquer maneira, não há a menor preocupação com o transporte e provavelmente nem com o impacto socioambiental.

Eu comecei a falar a sobre reciclagem artesanal e seus horrores na postagem Reciclagem de pneus e cintos de segurançaonde dou uma ideia dos equívocos atuais:

Quem for leitor mais atento do blog vai notar que a reciclagem artesanal não é muito bem vinda por aqui. Minhas razões são muitas:

1. Geralmente o resultado é horroroso, salvo nobres e raras exceções. Não existe um designer dentro de todos e ecodesign é ainda mais desafiador, justamente porque impõe limitações.

2. Um pote de margarina, batata pringles, vidro de maionese ou seja lá o que for é uma embalagem inútil. Se o produto industrializado-processado é uma porcaria e só faz mal à saúde, além de financiar o cartel da agroindústria que leva os produtores rurais à falência, porque eu haveria de comprar nescafé e ainda me dar por satisfeita de colocar uma capinha de croché, se posso tomar meu café orgânico produzido pela agricultura familiar e embalado num saco simples? Por que manter uma coleção de vidros de maionese reutilizados e grosseiramente decorados com coisas como cola colorida e paetês, se a maionese caseira feita em ovos orgânicos com limão galego e até azeite extra virgem de procedência controlada e cultivo biológico é muito mais saudável, deliciosa e barata?

Mesmo que algumas embalagens sejam indispensáveis, é mais honesto deixar numa cooperativa de reciclagem para beneficiar mais pessoas. Se há muitas embalagens na sua casa é porque você compra errado, compre a granel e veja que o volume vai reduzir em uns 90%. Se sobram vasilhames de produtos de limpeza, reveja as opções da permacultura para faxina e limpeza da casa.

Não, não dá. O pior é que eu sempre recebo emails e links no Facebook de pessoas bem intencionadas com seu brinquedinho em pet. Não me levem a mal, mas o pet é uma embalagem derivada de petróleo que embala um refrigerante e, se todo refrigerante ainda consome em média 30 litros de água para cada litro da bebida, onde está exatamente a sustentabilidade nisso tudo?
E o brinquedinho é sempre tosco. Além de cafoninha, ainda estimula as crianças que recebem essa (des)educação ambiental a comprar mais pet para fazer mais brinquedinhos que nunca vão chegar aos pés do game que eles realmente querem.


Se está ou conhece alguém que esteja nessa fase de deslumbramento chinês, mostre as fotos abaixo e explique que não existe produto sustentável que não tenha sido produzido em condições dignas, fair trade, o comércio justo que trata de produção e não exploração.

Operários chineses revelam a história verdadeira dos brinquedos

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A Joanninha aluguel de brinquedos trabalha com outro sistema, também interessante, alugar brinquedos temporariamente, que pode ser muito válido com crianças que se cansam logo e nunca mais pegam no brinquedo caro comprado pelos pais.


Uma tendência atual é envolver as crianças na confecção do brinquedo e priorizar os brinquedos sustentáveis a partir de material reciclado. Como foi dito acima, não é para a mãe sair correndo e trazer do mercado um pack com uma dúzia de pets, mas se já existe rolo de papel higiênico, caixas de ovos, de papelão em geral, além de rolhas, vasilhames de produtos de limpeza e até móveis velhos, nada mais natural do que reencontrar nova função ao que seria descartado. Existem milhares de sites e blogs para mães na internet fornecendo esses tutoriais, deixo alguns exemplos básicos e simples abaixo:

Exemplos simples de playmobil em caixa de ovos:




Rolos de papel higiênico:




Em caixa de papelão, dependendo da idade:




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Repare que as crianças estão à caráter de capas e galochas vermelhas!




Em vasilhames de produtos de limpeza:




Em rolha:




Boliche improvisado:




Versão avançada, para pais e mães com habilidades manuais:







Se o bercinho não tem mais serventia, sempre existe a possibilidade de transformá-lo na primeira escrivaninha da criança ou pelo menos numa mesa-aparador. Mantenha a estrutura original no alto de um armário, quando essa escrivaninha perder a função, o berço pode ser remontado e doado a outra criança com menos condições.










Bom exemplo a ser replicado no resto do mundo:

Chinelos descartados na praia tornam-se brinquedos no Quénia


Julie Church é especialista em conservação da natureza e a cara por trás da Ocean Sole, uma ONG que retira todo o tipo de lixo das praias – sobretudo chinelos de borracha. Depois, Church pega neste lixo e transforma-os em brinquedos, bijuterias e objectos de decoração.
O projecto está a ser desenvolvido no Quénia e está também ligado à inclusão social e emprego. É que a transformação de lixo em objectos do dia-a-dia é assegurada por um grupo de mulheres e homens quenianos, que assim ajudam o ambiente e ganha algum dinheiro.
Para além de brinquedos, há artesãos que já fazem esculturas gigantes com estes resíduos, vendendo-as a turistas de todo o mundo com a marca da Ocean Sole. Na verdade, este grupo de cidadãos trabalha cerca de 400 toneladas de borracha por ano das praias, tendo a iniciativa reconstruindo a vida da parte da comunidade costeira do país africano.
Segundo o Meu Planetinha, o grupo terá já 100 pessoas, sendo que muitas delas passavam fome antes deste emprego. É o caso de Maureen Atineo e Eric Mwandola. Este último confessou que não tinha dinheiro para comprar sapatos, mas hoje tem comida, roupa e consegue colocar os seus filhos na escola.
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Outra tendência que vem sendo adotada é a Festa Infantil doméstica e mais simples. Aqui no Brasil, casas de festas infantis mais parecem um mega parque da Disney e as festas proporcionadas, além de caríssimas, são um exagero de ostentação, desperdício e falta de civilidade.
Eu não frequento festinhas infantis há alguns anos, os filhos de minhas amigas estão crescendo e a fase passou. Mas quando frequentava, notei que havia sempre mais adultos do que crianças e invariavelmente, som alto com música de casa noturna e muita, mas muita cerveja. Ao final da festa, as crianças estavam exaustas, dormindo pelos cantos e os adultos se empanturrando de comida, bebida e até passando da linha, se é que deu para entender.
Nunca disse nada às minhas amigas, mas eu sempre detestei àquelas festinhas, sentia pena das crianças estarem deslocadas fora do "pula-pula" e via aqueles cenários alugados como algo provinciano e tão cafona quanto um casamento em Las Vegas. Perdoem minha solteirice, mas aos leigos parece mesmo que a festa infantil é uma forma de os pais se afirmarem financeiramente diante da sociedade, muitas vezes até se endividando para isso. A criança é só um pretexto de a mãe aparecer para as colegas de academia, trabalho, salão de beleza, condomínio, as outras mães da escola, etc.

Não quero encerrar de forma panfletária, é fácil falar do que não enfrento, então deixo essa função com outra mãe - uma brasileira que mora na Alemanha e expôs lindamente a diferença entre a festinha infantil de país rico com igualdade social à festinha infantil de país emergente que já foi chamado de Belíndia. 



A festa de aniversário infantil na Alemanha é bem diferente da que nós brasileiros conhecemos. Não há essa produção toda e nada de muito doce. Até os 3 anos os pais não fazem quase nada. A não ser um lanche com bolo para o qual os avós são convidados e isso só na parte da tarde. Café com bolo e acabou.
Quando a crianca completa 3 anos, vai para o Jardim de Infância e é aí que começa a sua vida social. Quando ela faz aniversário, além do tradicional café da tarde só com a família, muitas vezes a mãe decide que a criança vai comemorar a data na própria escola. Então ela combina com a tia do Jardim que no dia tal ela vai levar um bolo para que o filho ou filha possa festejar com os coleguinhas. E isso é tudo. Muitas pessoas moram em apartamentos e não têm espaço suficiente para receber as crianças. Outras trabalham e elas vêem no Jardim da Infância uma boa oportunidade de tudo ser feito por lá mesmo.
Há aquelas que fazem assim no Jardim e também em casa com poucos amiguinhos. Se a criança estiver fazendo 4 anos ela só pode convidar 4 amigos, se faz 5 anos, 5 amiguinhos. Eles partem do princípio que assim a criança aprende a contar bem os números. E olha que os alemães  respeitam essa regra!
Quando a criança vai para a escola, aí sim eles comemoram mais. E entra também muita criatividade na hora de planejar a festa de aniversário. Uns fazem numa praça de brinquedos, outros convidam para o cinema, para nadar, para passar a tarde num museu ou num parque de diversões tipo Tivoli Park, essas coisas.
Mas, olha, é somente a criança que é convidada, os pais nunca são convidados e não há uma grande festa como nós fazemos no Brasil. Geralmente os convites são feitos pela própria criança e nele vem a hora do início e do fim da festa, que tem 3 ou 4 horas de duração. E os pais vão pontualmente buscar seus filhos.


Na Festa do Morango da minha filha, ela mesma desenhou a fruta na capa do convite. Normalmente as festas aqui só tem bolo com suco e poucos doces. Nada de salgadinhos, os alemães não conhecem isso. Se a festa for dentro de casa, o que é mais comum, a mãe prepara algum trabalho manual com os convidados. A televisão nunca é ligada e as crianças brincam pra valer!

Quando a festa está por terminar, uma pequena janta é oferecida às crianças. Pão com queijo, salame ou presunto. Algumas famílias oferecem batata frita com alguma salsicha, bolinhas de carne moída, nuggets ou mini pizzas. Na porta de casa, ao se despedir dos amiguinhos, o aniversariante os presenteia com uma sacolinha contendo balinhas ou chocolates, além do trabalho manual que fizeram durante a festa.

Eu gosto muito de como é feito aqui na Alemanha, pois a festa é para a criança e a criança se diverte. No Brasil, a festa é um monumento, muitas crianças nem entendem o que está acontecendo. O povo alemão gasta o que tem ou pode gastar e não cogitam a possibilidade de bancar uma festa que extrapole seu orçamento. Eles preferem usar o dinheiro para viajar e oferecer um aprendizado cultural aos filhos.
Katia, eu gostei muito do que aprendi aqui. Não é preciso muito dinheiro para deixar as crianças felizes. As festas dos meus filhos se baseiam muito nas minhas  brincadeiras de quando eu era criança e me lembro o quanto fui feliz assim, pois não tínhamos dinheiro. Os doces eram todos arrancados do pé no fundo do quintal: mamão, coco e abóbora.
Essas mega festas que acontecem no Brasil para quase 200 pessoas me parecem um exagero. Também sinto que as pessoas têm medo de mudar e serem julgadas por não terem dinheiro para festejar como “deveriam” e aí se endividam até a raiz dos cabelos. Loucura isso! As pessoas precisam se preocupar menos em ostentar. Isso é um ciclo vicioso.
Nesse caso, eu acho os alemães muito mais autênticos. Ninguém se preocupa em provar nada pra ninguém. Vamos acabar com esses velhos rótulos, vamos criar uma geração pé no chão consciente para a vida que está aí. 
Como te escrevi antes, não sou adepta de festa cara. Sou adepta das brincadeiras e sorrisos! Seguem as fotos do aniversário mais recente da Vivi, que custou entre 100-120 €.
  

A Viviane nos pediu que este ano nós escondêssemos o presente dela em algum lugar da casa, pois ela achava muito chato simplesmente receber o presente e abri-lo. Então fiquei pensando numa forma dela andar a casa inteira procurando o presente e fiz uma lista com o título: “Wo verstecken Eltern die Geschenke für ihre Kinder?” (Onde os pais econdem os presentes das suas criancas?).

Como nós temos uma casa de 3 andares, a brincadeira ficou bem legal. Eu chamei a escada de “montanha”. Então ficou assim a lista: “Suba a montanha até o escritório e na impressora você vai encontrar sua próxima tarefa”. Siga montanha abaixo até o lugar onde você toma banho para receber outra dica... e assim foi com nove tarefas relativas a idade que ela estava fazendo. Onde estava escondido o presente? Dentro da gaveta de biscoitos, rs.

O tema da festinha foi: Viviane im Wunderland. Para decorar a porta de entrada, eu usei figuras de bule que a Viviane pintou e de alguns personagens da história da Alice no país das Maravilhas.

Eu mesma confeccionei em papéis cartões bem grossos algumas cartas do baralho com naipe 9 por conta dos anos que estaríamos comemorando.

A Viviane decorou o próprio bolo e os cupcakes. Ela também preparou uma historinha para as suas convidadas sobre um homem muito rico que vendeu tudo porque encontrou um diamante. O conto foi baseado em Mateus 13:44-46.


No cestinho coloquei copos coloridos e uma caneta Pilot para que as crianças escrevessem seus nomes. Cada uma recebeu uma lista com tarefas que elas mesmas tinham que desenvolver no decorrer da festa. O ponto forte de toda a festa não foram os cupcakes, nem o bolo e nem as guloseimas. Foi o momento em que elas puderam se maquiar e pintar as unhas. Esse foi o momento em que elas soltaram o maior grito que ecoou pelo jardim, rs.

E como recordação de tudo isso, as crianças levaram para casa o livrinho da historinha contada pela Vivi e uma xícara decorada com bolos, cupcakes, bule etc. Tudo a ver com o tema da festa!

Beijos, querida!

Nas postagens sobre o Natal e a Festa Junina sustentável (linkadas abaixo), você encontra muitas sugestões de atividades que substituem a ida ao shopping para comprar o presente, além de presentes e brindes sustentáveis e toda uma proposta assistencial que justifique as festas. Na postagem específica sobre o Natal sustentável, há cardápios de festa para todos os gostos apenas com receitas saudáveis, incluindo pizzas, refrigerantes, sorvetes e bolos caseiros, orgânicos e sem açúcar refinado. Já na postagem da Páscoa sustentável, encontram-se muitas sugestões com chocolate, sugiro os pirulitos de frutas banhadas em cacau, como a maçã do amor dos parques, mas sem açúcar e totalmente orgânica. Delícias saudáveis e sustentáveis, lindas em disposição numa mesa de festa.
O mais importante é entender que se você passa o final de semana na frente da tv comendo biscoito de pacote, seu filho muito provavelmente repetirá seu exemplo. E essas atitudes, muitas vezes inconscientes, vão desde a escolha do animal de estimação, à reciclagem do lixo, envolvimento de todos da família em alguma atividade voluntária ou mesmo a construção do cardápio semanal servido no jantar. É pelos frutos que se conhece uma árvore, nada é mais forte do que um bom exemplo.
Envolver as crianças na confecção desses brinquedos a partir de material reciclado para desestimular o consumo de brinquedos industrializados novos e cada vez mais descartáveis pode ser mais interessante do que qualquer festinha, pode ser a própria festa em si, basta um mínimo de boa vontade. Por que não aproveitar para transformar todo esse processo: reciclagem de material, confecção do brinquedo e "inauguração" da instalação num novo ritual que pode começar semanas antes da festa? Esse envolvimento pode trazer uma nova dimensão ao ato de consumir e assim, fazer com que as crianças mudem sua ótica de maneira lúdica.


Dos 10 piores "alimentos" para a saúde, os lanches servidos em redes de fast food constam em quase todos os itens: sorvete industrializado, salgadinho de milho industrializado, pizza pronta, batata frita, batata chips, salsichas, bacon, donuts, refrigerante convencional e dietético.



Para começar a virar esse jogo:






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