domingo, 7 de agosto de 2011

As frutas que ninguém come mais

A Neide escreveu no Come-se sobre as frutas de quintal do Acre, de Acrelândia para ser mais exata. E lá estão elas, naturalmente orgânicas e sem qualquer modificação genética. Dando na época certa, para combinar entre si. Para que o refresco em pó deixe de ser uma realidade e a conta do supermercado fique cada vez mais barata.
Mas essa conta não fica mais barata, na verdade gasta-se cada vez mais com a comida embalada, fora de época, que não alimenta, engorda e ainda obriga nossos produtores rurais a pagarem royalties pelas sementes e pesticidas.
E tende a ficar ainda mais cara no longo prazo, com as fábricas de bebidas prontas sugando a água dos lençõis freáticos de onde se instalam e desertificando cidades inteiras, ou com os mesmos lençóis freáticos sendo contaminados pelos agrotóxicos das monoculturas de larga escala.

Lendo a postagem da Neide, lembrei de outra pessoa, um colega de faculdade negro retinto, alto e magro. Parecia um jogador da NBA. Nunca comprou uma fruta na vida, nascido e criado na ilha de Itaparica (BA), comia as frutas do quintal, seu e dos outros. Assim mesmo como Neide conta, tudo na base do escambo. Fez uma ressalva e confessou que as vezes comprava umbu (que não existe por aqui), mas um latão de tinta cheio de umbu custava mais ou menos R$5,00. Vendiam tão barato para não estragar e ele, que não tinha essa facilidade com umbus, pagava os tais R$5,00 a contragosto (???)
Ria da gente, cariocas, dizia que só comíamos bife com batata frita e que fruta era maçã, banana e laranja. E achava a vida por aqui muito cara, principalmente a comida. Um professor muito viajado lembrou de ter comido a melhor dobradinha de sua vida justamente na terra desse rapaz, a ilha de Itaparica. Uma dobradinha divina, com azeitonas e tudo que um ser humano possa imaginar, nadando em grosso feijão branco. O ilhéu lembrava, contou em sala que sua mãe fazia essa dobradinha à moda da Ilha, aproveitando de tudo num lugar limitado de recursos e o resto da turma torceu o nariz com nojo das tripas que fazem parte de uma dobradinha.
Tudo bobagem, me deixou ainda com mais vontade de conhecer esse paraíso tropical, onde até um Club Med está instalado. Deveriam ter nojo de um peito de frango molengo e sem sabor do frango criado confinado à base de remédios e hormônios.

Esse colega de turma me mostrou no campus da faculdade um pé de cajá manga, ele cutucava os galhos com uma vassoura e comia os frutos que caíam. Eram os que estavam bons. Eu que nunca havia comido um cajá manga, provei e achei sensacional, uma versão agreste e sertaneja da manga espadinha. Que coisa, bem ali na minha cara e eu perdendo tudo.
Comecei a ficar atenta e descobri uma jaqueira, lá estava a jaca verde que eu tanto procurei pelas feiras e nunca achei. Pronto, é roubar uma e fazer moqueca, coxinha, sanduíche de "carne louca"... Estou salva!

Lembrei também de outro colega, dessa vez de trabalho. Mineiro, dono de fazenda de café nas hrs vagas. Para descansar a terra, alternava a plantação de café com feijão e banana. Exportava o café "cultivado com veneno", mas consumia e distribuía aos amigos o feijão e a banana cultivados sem agrotóxico, que não são orgânicos por serem produzidos numa terra tão contaminada e sem critério algum. Contou que não valia a pena vender, um dos muitos atravessadores que somos obrigados a entubar, ofereceu R$3,00 no caminhão de banana. Ele achou um desaforo, pegou tudo de volta e começou a distribuir aos vizinhos, fazer doce ou dar aos cachorros. Fez melhor negocio no final das contas, complicado é saber disso e entrar no mercado para pagar R$3,00 no cacho com uma dúzia.

E eu vinha pela rua aqui no RJ, observando o movimento dos ônibus, a barulheira e ia entrar no banco de sempre, quando me deparei com a figura abaixo:



Simpaticíssimo, passa os dias na Rua das Laranjeiras, que de laranjal só tem o antigo nome, seu ponto é em frente à Caixa Econômica Federal, onde há uma galeria com a única loja da cidade que vende orgânicos à granel. Olhei os produtos meio sem padrão e perguntei "Que frutas são essas?"
Ele foi sincero: "Os morangos, pinhas e abacates são comprados, o resto é do sítio lá em Seropédica".

Seropédica é um município contíguo ao Rio, é relativamente próximo, mas completamente rural. Tão rural que a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro instala-se por lá. Na verdade, eu fiz vestibular para essa Universidade há muitos anos, passei e nunca fui, mas voltei com uma jaca imensa e molenga na mala do carro quando das provas. Jaca roubada descaradamente por um grupo de vestibulandos recém saídos da adolescência urbana, virou doce feito pela minha falecida avó e meus pais se refestelaram na época. Não gosto de doce de jaca, melhor assim.
E pena esse abacates serem comprados, já morei em rua com abacateiro, dava fruta de 2 em 2 meses, o porteiro guardava para mim. Eu falo melhor sobre isso na postagem exclusiva dos Abacates.

Mas ele disse tudo que eu queria ouvir. Peguei logo de cara um saco de carambolas, R$5,00 cada saco com uma dúzia de frutas perfumadas, levei também as jabuticabas (de casca fina, maiores e mais gostosas) por R$6,00. Ganhei um sapoti, não conhecia, que delícia.
Ele tinha um último abiu, levei para experimentar com o troco de R$1,00. Sapoti é melhor, mas bom mesmo foi o custo total: R$12,00
Disse que costuma ter jacas, jambos, cajás, graviolas, siriguelas, acerolas e caquis fuyu, que eu só conhecia de Macaé (são maiores e mais firmes, quase um cruzamento de caqui com maçã, se dá para imaginar). Tudo de Seropédica, do sítio de uma "jovem de 92 anos", como ele descreveu.
Contou ainda que o feijão guandu, vendido por ele, se faz como o fradinho, al dente e em salada, que fica bom com frango desfiado e vinagrete de tomate e cebola. Uma salada para comer com pão quentinho.

Que maravilha, agora é subir a Rua das Laranjeiras, 5 minutos a partir do Largo do Machado, parar e perguntar "O que é de Seropédica?" para comprar muita fruta boa e barata em fair trade.


As carambolas, que viraram 5 litros de refresco em kefir de água, e o feijão guandu, que vai ficar para uma próxima vez:



Os sapotis, que mais parecem cocos africanos para enfeite de mesa, mas surpreendem:



As jaboticabas de casca fina em vizinhança aos morangos hidropônicos, que eu nem olhei:




A primeira descrição oficial do Brasil foi feita por um português, Pero Vaz de Caminha, e retrata isso daqui como "uma terra em que se plantando, tudo dá".


A comilança continua em:
Come-se pelas ruas da Tijuca
Seu Roberto continua vendendo frutas que ninguém come mais em Laranjeiras
Outras frutas que ninguém come mais: jenipapo chocolate, graviolas, jabuticabas, seriguela e cana canaiana



Mais informação:
Farm City: fazendas urbanas para comprar orgânico, local e justo
Hortaliças em extinção pelas tentações da cidade grande
Slow food: tradição, gastronomia e prazer
"Quem trouxe a fome, foi a geladeira"
Orgânicos podem ser mais baratos
A Feira de orgânicos do Flamengo
Compras a granel

9 comentários:

Marilia disse...

Carol,
aproveita cada fruta e sabor que tens aí no Brasil! Já que estamos no verão aqui, tento ao máximo comer as frutas da estação, pois depois só tem frutas exportadas.
Um abraço é ótimo começo de semana,
Marília

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Marília, depois conta mais como são essas frutas da Croácia, como é quando está frio, etc.
Bjs
Carol

Alexandra disse...

Oi, cheguei aqui por indicação da Fer do blog Chucrute com Salsicha. Moro no Canadá mas há 4 anos morei um ano na Espanha onde estimulada pelos mercados municipais de Barcelona, passei a comer mais sazonalmente e a priorizar produtos locais. De volta ao Canada fugi do supermercado e hoje faço compras exclusivamente em feiras e mercadinhos. Sou membro de um CSA (community shared agriculture) que eh m serviço onde pagamos no inicio da estaçao e recebemos uma cesta de produtos fresquinhos e organicos diretamente dos produtores da regiao. Não tenho mais interesse em ir atras de manga e banana aqui. Como as frutas daqui (moro perto de umas melhores regiões do mundo para produção de frutas da familia do pessego como nectarinas e ameixas (o que eles chamam de stone fruits aqui) e no inverno fico só nas frutas secas mesmo.

Mas eu queria mesmo era comentar o seu post que me lembrou da minha infância pelo Brasil afora. Eu muitas vezes comento com o meu marido, canandese, que tem certas frutas que eu nunca comprei mas que cresci comendo. A jabuticaba eh uma delas. Minha avó, falecida há 2 anos, tinha duas jabuticabeiras no quintal e todo ano as arvores ficavam completamente cobertas de frutas. Comíamos até ñ aguentar mais e dividiamos com vizinhos, amigos e parentes. Na casa da minha outra avó, em Minas, tinha muita manga, banana, mamão.... Se eu passar por laranjeiras na proxima vez que passar pelo Rio procuro essa banquinha...

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

oi Alexandra, fui lá no Chucrute e não me achei... Vc sabe em qual postagem a Fer me indica? Queria agradecer pela gentileza.

Esses pêssegos e nectarinas devem ser uma coisa, não conheço a Espanha (ainda).

Sensacional seu esquema de compras, fair trade total, vai direto aos produtores e corta os atravessadores. Boa!

Alexandra disse...

Oi Carol (já estou íntima!),

Não sei se a Fer fala de vc no blog - eu que pedi a ela indicação de blogs que falem de alimentação orgânica e sustentável no Brasil pra eu poder passar pra minha família e pegar umas dicas de lugares/produtos para visitar/experimentar quando eu estiver visitando. Ela me passou o seu blog, que por sinal passei horas lendo hoje de tarde.

Também sou adepta do granel e das feiras. Nos últimos anos os farmers' markets, as feiras daqui, começaram a pipocar por todo lado aqui em Toronto. É muito legal isso. Mas ainda luto tentando convencer amigos que dá sim para se alimentar de forma orgânica sem abrir falência. Acho que só de não comprar refrigerantes e outros produtos industrializados já economizamos um bom dinheiro, né?

Nesse ultimo ano passei a me focar em retirar os produtos tóxicos da minha vida. Acabei com os tupperware, dei fim nas panelas de teflon (só tinha uma frigideira mesmo), e troquei os materiais de limpeza. Ando viciada no Castile Soap liquido - limpa tudo! Ah, troquei a cortina do box de plastico por uma de algodão!

Ainda tem coisa pra mudar mas aos poucos chego lá...

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Alexandra, é isso aí! A compra consciente sai mais barato a curto, médio e longo prazo.
Não existe vantagem comprativa, o ganho é absoluto quantitativamente e qualitativamente.

Muito gentil da Fer, do Chucrute, nem conhecia o blog. Vou lá falar com ela.

Beijos e apareça sempre, adorei seus comentários

ps: o blog está concorrendo ao TOPBLOG na categoria sustentabilidade e estamos participando também da venda autogerida de um livro de receitas vegetarianas, onde sou colaboradora. Fique à vontade para participar tb.

Alexandra disse...

Olha, eu realmente não sei se sai mais barato - a minha impressão é apesar de algumas coisas serem mais caras, nos final tudo dá na mesma. E no final de contas, eu continuo conseguindo pagar o aluguel e todas as minhas contas. Outra coisa que ajuda é não comer carne todo dia - só aí já há uma grande economia...

Hercli disse...

Olá
Estava procurando umas receitas com abacate e encontrei o seu blog , achei muito legal e este artigo das frutas que ninguém come mais é muito bom e me diverti bastante porque aqui no Goiás se come muita jabuticaba (setembro e outubro) , carambola , sapoti e as ruas de Goiânia tem muito pé de jambo , acerola , pitanga ,amora , tamarindo e muitas outras ...acho que por isso muitas pessoas fazem piada do estado e da nossa cidade chamando de "roça" .
Vou continuar visitando o blog.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Hercli,
seja bem vinda.
Eu adoro todas as frutas que vc mencionou. Não conheço Goiás, mas vc acaba de me dar mais uma razão.

abs e apareça,
Carol