quarta-feira, 30 de março de 2011

Tubalhau, um contrassenso em Fernando de Noronha


O "Bacalhau" de Tubarão pescado em Noronha
Por Marcelo Szpilman, biólogo e presidente do Instituto Aqualung

Provocado por um e-mail revoltado da Ana Flavia Pantalena, associada do Projeto Tubarões no Brasil, resolvi expor o fato e compactuar com sua indignação.

O Arquipélago de Fernando de Noronha é uma região especial, um paraíso brasileiro com o título de Patrimônio Mundial Natural concedido pela UNESCO. Dividido em duas unidades de conservação, um Parque Nacional Marinho e uma Área de Proteção Ambiental, Fernando de Noronha é um dos poucos lugares no Brasil onde todos os turistas pagam uma Taxa de Preservação Ambiental. Tudo isso para assegurar a proteção e preservação das espécies vegetais e animais, terrestres e marinhas. E, obviamente, os tubarões estão entre os animais marinhos mais famosos e requisitados de Noronha.

Tendo isso em mente, é possível, entre diversas outras atrações da ilha, passear de lancha com fundo transparente ou ser rebocado com o planasub, com o objetivo de ver tubarões, e assistir palestras educativas sobre esses curiosos animais. Além disso, pode-se conhecer o Museu do Tubarão, que apresenta suas estruturas, hábitos e características e está localizado numa enseada onde pequenos tubarões podem ser observados nos horários de maré cheia. Para completar o passeio, uma lojinha vende suvenires onde o tema principal não poderia ser outro senão o tubarão. Tudo muito interessante e operado pelo mesmo grupo responsável pelo restaurante (ao lado do museu) cuja especialidade é o Tubalhau, um bolinho de carne de tubarão salgada. O cardápio traz também a Tubalhoada e o Tuba Burger.

Ainda que eles aleguem que a carne do tubarão venha de fora da ilha, apesar da grande placa que anuncia o tubalhau como sendo o “bacalhau” de Fernando de Noronha dizer o contrário __ “pescado e processado artesanalmente em Fernando de Noronha”__, é um enorme contrassenso. As mesmas pessoas que proporcionam e incentivam o conhecimento e a desmitificação dos tubarões, e que tocam operações dependentes de sua existência (e sobrevivência), são as mesmas que proporcionam e incentivam o consumo dos tubarões.

É importante esclarecer que não há proibição legal para pescar e consumir tubarões. E a questão aqui tratada não é sobre posicionamento a favor ou contra. A questão é sobre oportunismo. As operações de esclarecimento e aproximação dos tubarões, que deveriam objetivar sua proteção e conservação nas águas de Fernando de Noronha, nada mais são do que chamarizes que conluem para um negócio que tem nos consumidores desavisados seu grande público.
 
 
Mais informação sobre tubarões:
Guia Slow Fish Brasil
Tubarões no Brasil, livro de Marcelo Szpilman
O mar não está para peixe: Slow fish ou "O fim da linha"
Botos, símbolo do brasão do Estado do RJ, podem sumir das praias até 2050
DO QUE A PESCA DE ARRASTO É CAPAZ: AS TONINHAS DE PERUÍBE PRECISAM DE NOSSA AJUDA


Mais Marcelo Szpillman:
Tubarões no Brasil
Incidentes com Tubarões em Recife
Finning - Até quando teremos esse absurdo?
O mito das emissões de carbono neutralizadas
Alerta de tubarão em Cabo Frio: necessário ou excesso de zelo

Se gosta de bolinhos fritos como tira-gosto, tente: kibe, falafel e acarajé

E assine a petição para abolir a pesca de tubarões para venda de barbatanas

Nenhum comentário: