quinta-feira, 10 de março de 2011

O pudim de coco de D. Cora Coralina

Sair mais cedo do trabalho é bom, dá para fazer hora extra na vida pessoal. No meu caso, aproveitei para ir ao museu, ao CCBB mais especificamente, onde está ocorrendo uma badalada exposição sobre o Mundo Mágico de Escher, de quem sou fã.
Cheguei lá e a fila era imensa, desanimei e fui a outra exposição no mesmo local sobre a poetisa e escritora Cora Coralina, goiana e senhora de muitas armas, a exposição é maravilhosa, doce e singela como tudo que Cora Coralina nos deixou, mas com a capacidade de nos transportar para uma casa de fazenda.

Essa senhora, já falecida, nasceu no século retrasado em Goyas (assim, com "Y"), numa época em era dada às mulheres apenas 2 opções: casamento ou convento.
Cora Coralina, nascida Ana (Santa padroeira de sua cidade natal), casou-se mas manteve intensa produção literária, incluindo doces cadernos de cordel e delicadas descrições culinárias, só vindo a ser reconhecida na velhice, quando teve seu primeiro livro publicado.

Admirada e respeitada por escritores do calibre de Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, seus amigos pessoais, Cora Coralina bordava, costurava e cozinhava para filhos, netos e bisnetos. Suas muitas citações foram inclusive expostas em bordados de tapeçaria pelas paredes do CCBB.

A exposição, cheia de fotos, nos faz sentir numa casa de fazenda à margem de linha férrea, com suas paredes caiadas em branco e janelas azuis, telhas com musgo, móveis antigos em madeira de lei e a cozinha imensa em torno do forno a lenha, com filtro de barro para água, tachos de cobre, toalhas de chitabules de ágata e os eletrodomésticos antigos e duradouros.


Por coincidência, devo ter abordado aqui anteriormente todos esses assuntos, então não resisti e posto uma receita dela, copiada do caderninho pessoal de D. Cora.

O pudim de coco de D. Cora Coralina
Fazer 1 litro de leite de coco torcido e coado no pano, dissolver 250ml de assúcar (assim mesmo com "ss") e levar à fervura. Juntar uma colherinha de manteiga e esperar esfriar.
Juntar 6 ovos batidos e levar a cozer em banho maria (não diz se em forno, tacho ou panela e tampouco menciona calda).

Na época dela, todos os ovos eram orgânicos e muito provavelmente o galinheiro ficava no quintal da casa. A manteiga, idem, e a vaca que generosamente o forneceu tinha até nome e era quase um membro da família. Cora Coralina inclusive escreveu um poema sobre o milho, que não era transgênico.
O leite de coco coado no pano citado na receita é uma adaptação pré-liquidificador, mas o link ensina como fazer leite de coco caseiro facilmente.
Sobre o açúcar (ou assúcar, como se dizia nos tempos de D. Cora), use rapadura. Antigamente, nem existia açúcar branco refinado, coisa de nobres e só encontrado na corte. Açúcar era marrom e de engenho, num Império cuja cana foi até ciclo econômico - resultante da fermentação da garapa, o que hoje chamamos de rapadura.
Eu faria o cozimento final em panela de barro, esperaria esfriar um pouco e arrumaria em tacinhas na geladeira (que ela não tinha à época). Mas quem quiser assar num pirex em banho maria previamente untado com melado de cana, vá em frente e volte para contar como ficou.
Esse pudim deve ficar amarelinho, como um quindim, e não branco, como um manjar. Juntar então mais uns 250ml de coco ralado, ou o bagaço residual do leite de coco caseiro, pode realçar ainda mais o sabor.


Para encerrar, o poema dela mais famoso:

"Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."


Para conhecer vida e obra, Cora Coralina tem uma página oficial no Wikipedia.
A primeira foto é da casa onde nasceu e viveu.

4 comentários:

Tatiane Fernanda disse...

Adoro o jeito delicado e atencioso que você escreve Carol. Te acompanho faz uns dois meses e estou encantada. Parabéns!

sylribeiro disse...

Que linda a casa da dona Cora Coralina, tive o prazer de visitar a casa dela numa visita a Goiás Velho, há alguns anos.
A cidade inteira é muito inspiradora. Não sei se vc conhece, mas na chegada `a cidade, vc passa por uma serra que fica completamente dourada, dependendo da hora do dia, é muito incrível, parece que vc esta entrando num outro universo.
A casa da Cora Coralina rescende um perfume afetivo, e tem uma vista tão gloriosa, que mulher incrível, com docilidade de alma ela carregou sua bandeira amorosa!
Adorei a postagem!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Tatiane, seja bem vinda :-)


Oi Syl, não conheço Goiás (ainda). Mas sua descrição me deixou com mais vontade.
abs

Green Womyn disse...

Gosto da Cora Coralina desde criança, pois minhas tias tinham os livros dela. E foi com emoção que visitei essa exposição, que aqui em SP foi feita ano passado, no Museu da Língua Portuguesa. Como fã da Cora, comprei esse livro de receitas assim que foi lançado. O livro é lindo, com receitas simples e deliciosas.