segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Como comprar e reconhecer produtos orgânicos

Existem ainda muitas dúvidas sobre o que são produtos orgânicos, quais as vantagens e como fazer para reconhecer os mesmos.

No tópico sobre carnes orgânicas, surgiram algumas dúvidas sobre quais marcas seriam certificadas ou não e ainda, como confiar nessas certificações.
Barbara Kingsolver em seu maravilhoso livro “O mundo é o que você come” aborda uma questão ainda mais preocupante: caso você freqüente Feiras locais de produtores orgânicos, poderá notar que nenhum pequeno produtor rural é certificado.
O custo das certificações é tão alto que os mesmos iriam à falência caso pagassem tais custas. A autora, amiga pessoal e igualmente fazendeira, compra de velhos conhecidos e produz ela mesma o que sua família consome.

Como sou freqüentadora usual da maior e mais antiga Feira de Orgânicos de minha cidade, a Feira do Russel, resolvi abordar pessoalmente os feirantes e perguntar educadamente se os mesmos eram certificados. Muito poucos tinham a certificação para apresentar.
São pessoas muito simples e que geralmente trabalham em sistema de cooperativa. Esses homens e mulheres não têm como arcar com o custo alto, que, numa indústria, seria proporcional à obtenção de um ISO.
Mesmo os que vendem seus queijos e ovos caseiros, não podem apresentar qualquer garantia legal, o que não se aplica aos produtores tradicionais de queijo de cabra, búfala ou até à Naturallis e Vale da Palmeiras, que produz o melhor queijo de Minas industrializado que já comi, industrializado e orgânico.

Em tese, a comparação é inclusive procedente, pois as certificações internacionais do sistema ISO e OHSAS são certificações de qualidade de gestão e produção, incluindo sustentabilidade e responsabilidade ambiental. Logo, se pouquíssimas empresas podem arcar com os custos e exigências que envolvem as auditorias para obtenção de uma certificação internacional, um número ainda menor de produtores rurais, pode certificar-se como orgânico.

Alguns produtores rurais entregam em casa, ou fazem “feirinhas particulares” em lojas e mercados de produtos naturais - pode ser ótimo para o consumidor ou não, depende de quem fornece. Já passei pela situação de comprar frutas e vegetais orgânicos por telefone e, quando da entrega, achar os mesmos “grandes e coloridos demais”, iguais aos de cultivos convencionais do supermercado.
Da mesma forma que comprei morangos orgânicos em uma barraca da Feira do Russel (sem certificação) e ao chegar em minha casa, notar que os frutos eram grandes, esbranquiçados e “duplos ou triplos”, fato comum em cultivo com pesticidas químicos, além de completamente distintos aos morangos pequeninos e vermelhinhos da Korin, Cultivar ou Tamiso (todos certificados pelo IBD).
Consumi, mas não voltei a comprar daqueles fornecedores - o que, por outro lado, não me impediu de continuar comprando de outros que igualmente entreguem em casa ou disponibilizem seus cultivos na mesma feira semanal.
Há uma empresa sólida e muito tradicional que faz esse serviço de entrega, a Sítio do Moinho, além de Paloma Niskier (21 2539-0059 e 21 9823-8240) , cujos produtos me pareceram acima de qualquer suspeita.

Caso queira procurar pelos principais pontos de venda e fornecedores em todos os estados do país, o Planeta Orgânico disponibiliza um mapa nacional de venda de produtos orgânicos.

A população em geral tem uma tendência a romantizar a figura do produtor rural e vilanizar à da grande empresa. Existem 2 equívocos nessa postura, primeiro porque a empresa agrícola orgânica (certificada) emprega centenas de pessoas de carteira assinada, cumpre a CLT e é extremamente fiscalizada pelos órgãos públicos e entidades certificadoras, como IBD, ABIO, CMO, ECOCERT, AVAL, AECO e afins.
Por último, um pequeno produtor rural, provavelmente não é certificado pelas razões citadas anteriormente, não é fiscalizado já que está à margem dos registros oficiais e, mesmo que seja muitíssimo bem intencionado, nada impede que algum dia, por intempéries climáticas ou um surto de pragas, se veja obrigado a colocar algum “aditivo” e tenha que empregar todas as crianças de sua família para não perder uma safra, o que também pode acontecer em qualquer produção local de subsistência da própria família.

A verdade é que ainda sequer existe uma política nacional que legisle sobre o cultivo de orgânicos. Os 600 selos certificadores hoje disponíveis surgiram por iniciativa bem intencionada dos próprios produtores rurais e hoje, criam mais confusão do que esclarecimento ao consumidor. É muito comum encontrar produtos com mais de 3 certificações e outros, do mesmo produtor, sem nenhuma. Pior, mesmo que esse produtor queira certificar tal produto, talvez não consiga por falta de um selo (dentre 600) que se aplique àquele caso específico.

Como já ensinavam os justos que nos antecederam: na dúvida, deixe seu bom senso prevalecer. Um suco pronto certificado como orgânico, além de hidropirataria, demandou combustível fóssil na logística de transporte e um mundo de embalagens, como tetra-pack ou long neck (ambas não-recicláveis), além de não ser 100% orgânico em sua totalidade, já que a legislação atual só obriga o fabricante a cumprir com 70% de ingredientes orgânicos para conseguir a mesma certificação que um produtor rural não pode pagar. Um suco caseiro, a partir das frutas compradas desse mesmo produtor rural (não certificado), além de mais saudável, é mais seguro.
Lembre ainda que no Ceará, a Ypioca, cacharia tradicional e outrora certificada, secou uma lagoa de reserva indígena.

Já que falamos de sucos, o suco orgânico mais vendido no país tem 2 certificações: IBD e EcoVida certificação participativa, provavelmente obtido antes do IBD.
O mesmo problema se aplica aos polêmicos cosméticos "verdes".

Comprando a granel, uma das muitas bandeiras desse blog, atente que quase nunca é orgânico e castanhas e frutas secas são pulverizadas com inseticida para afastar roedores e pragas em geral.
Já existem empórios cerealistas vendendo a granel e orgânico.
No bairro do Flamengo (RJ), há 2 lojas de produtos naturais que vendem grãos a granel e orgânicos-biodinâmicos, da Biorga, Demeter e da biodinâmica Wolkmann: Natuflora na Rua Senador Vergueiro, 93 e o Mercadinho Grão Integral da Galeria na Rua das Laranjeiras, 43.

A Korin é um exemplo que ilustra bem a confusão existente. A Korin é uma empresa de hortifrutigranjeiros que pertence à Fundação Mokiti Okada (FMO), mas a mesma fundação tem uma outra empresa apenas para certificar seus produtos, a Certificadora Mokiti Okada (CMO - um dos 600 selos verdes do país), o que faz com que todos os produtos da Korin sejam automaticamente certificados pela CMO.
Você deve estar pensando então que se a CMO (pertencente ao grupo FMO) já é certificadora, logo os produtos da Korin não precisariam de mais nenhum dos selos?
Errado, porque a empresa foi acusada de má fé e certificou-se também ao IBD, no caso dos vegetais. Já os ovos e frangos, além do IBD, passaram pela chancela da AVAL e da AECO, por estarem compreendidos em outras especificações sanitárias, como todo derivado animal...
Em tempo, a criação da Certificadora Mokiti Okada, custou uma fortuna à Fundação Mokiti Okada e foi criada com o intuito de suprir uma demanda que poderia servir à outros produtores-empresas, além da Korin.
Hoje, a empresa dá mais uma demonstração de boa prática ambiental disponibilizando suas embalagens em fécula de mandioca, sem qualquer alarde, enquanto a Taeq (segmento orgânico-wellness do Grupo Pão de Açúcar) divulgou falsas embalagens biodegradáveis em politileno em seu site, distribui as mesmas no comércio varejista e fez do assunto um dos temas do excelente e imparcial programa Cidades e Soluções sobre o Primeiro Supermercado Verde do país, não por coincidência um supermercado Pão de Açúcar.


Para chás orgânicos, há a Tribal Brasil e, bebendo na rua, a Mega Mate - veja melhor aqui.


Transcrevo abaixo a cartilha do Governo Federal desenvolvida em conjunto pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, Ministério da Saúde, Ministério da Educação e Ministério do Desenvolvimento Agrário, chancelada pelo CONSEA, SDC, DEPROS e COAGRE.

O OLHO DO CONSUMIDOR É IMPORTANTE PARA GARANTIR A QUALIDADE DOS PRODUTOS ORGÂNICOS

Como identificar o produto orgânico no Mercado:

Para facilitar a identificação e dar mais garantia da qualidade dos produtos orgânicos, a legislação brasileira criou o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica – SISORG, no qual o Ministério da Agricultura passou a ser responsável por credenciar e fiscalizar as entidades que fazem a verificação se os produtos orgânicos que vão para o mercado estão de acordo com as normas oficiais.

Os produtos orgânicos que são acompanhados e aprovados por essas entidades credenciadas passam a utilizar o “Selo do SISORG”, que foi criado para facilitar a identificação dos produtos orgânicos no mercado


Este selo já começa ser utilizado este ano e, a partir de 2011, só poderão ir para o mercado os produtos orgânicos que estiverem com o selo, o que indica que sua produção está sendo acompanhada por uma entidade credenciada pelo Ministério da Agricultura.
Outra maneira para o consumidor ter a garantia que o produto é orgânico será conferindo se seu nome está incluído no Cadastro Nacional de Produtores Orgânico, que estará disponível na página do Ministério da Agricultura, na internet.

Os produtos orgânicos na venda direta sem certificação:

As feiras e pequenos mercados de produtores orgânicos são, cada vez mais, ótimas opções para você comprar diversos produtos orgânicos fresquinhos e diretamente do agricultor.

A legislação brasileira reconhece a importância dos laços de confiança estabelecidos diretamente entre produtores e consumidores no sistema de venda direta (sem intermediários). Esse tipo de mercado tem crescido com a ampliação do número de feiras orgânicas e de produtores que fazem entrega em domicílio.

A partir de 1 de janeiro de 2011, todos os produtores que trabalham com venda direta sem certificação devem possuir a Declaração de Cadastro de Produtor Vinculado a Organização de Controle Social – OCS. Esse cadastro é feito junto a Superintendência Federal de Agricultura da unidade da federação onde o produtor está sendo sediado e com isto garantimos a também rastreabilidade desses produtos para os casos em que surjam dúvidas da sua qualidade orgânica.

Atenção: Nestes casos os produtores não terão o selo do Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica.

Informações: organicos@agricultura.gov.br


Nota: vi recentemente uma Declaração de Cadastro de Produtor Vinculado a Organização de Controle Social - OCS pendurada na barraca de um feirante orgânico, é um papel branco e timbrado com selo da República, como um alvará.
Feirantes convencionais também precisam de licença, com o mesmo timbre, apenas o texto e o tipo da licença são distintos. Vamos torcer para a fiscalização ficar em cima e essas licenças realmente servirem ao seu propósito.


Para não dizer que não falei de flores: fuja de tudo que levar açúcar refinado ou qualquer de suas muitas formas, não existe açúcar (mascavo, demerara, cristal, etc) orgânico - mais informação em Mamãe não passou açúcar em mim!



Para comprar direto do produtor:
Mapa Nacional de Feiras Orgânicas no site do Instituto de Defesa do Consumidor

Uma opção para nós brasileiros, que jogamos no lixo 1/3 de tudo que é comprado no supermercado:

Banco de alimentos



Mais informação:
Compras a granel
Agricultura Biodinâmica
O Brasil orgânico que funciona
Vinhos orgânicos e biodinâmicos
Hidroponia x Agricultura Orgânica
Mel de abelhas x Melado de cana
Orgânicos podem ser mais baratos
Indústria pesqueira x pesca artesanal
Carnes orgânicas: o quê e como comer
Guerra de sementes e transgenia corporativa
Hortaliças em extinção pelas tentações da cidade grande
O mito do agrobusiness: Agronegócio perde em eficácia para agricultura familiar
Tudo que você queria saber sobre orgânicos, mas não tinha uma nutricionista para peguntar

5 comentários:

paloma disse...

Excelente post. E obrigada por me citar. Muito importante falar dos alimentos orgânicos e citar todo mundo. Cada um faz um pouquinho mas somos parte de um todo.

sylribeiro disse...

muito legal este post, bastante esclarecedor. cada um faz sua parte, concordo com a Paloma, e digo, que pena eu nao morar no Rio, senao compraria dela!
Aqui em Sp tem coisas legais tambem, depois se quiser me avise que passo a ficha do que eu conheço e gosto!
beijos parabens pela materia!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Paloma, sou fã do limão galego que vc revende. Ando com saudade, preciso pedir :-)


Oi Syl, quando tiver com um tempinho, posta os contatos que tiver por favor. Vais ser útil para a turma de SP.

beijos,
Carol

Anônimo disse...

Concluímos uma pesquisa - Região da grande vitória (ES)- voltada ao estudo da percepção ambietrnal da sociedade frente à problema´tica das Mudanças Climáticas. Iniciamos outra - esta em âmbito estadual - que visa conhecer o perfil da percepção ambiental do produtor rural do Estado do Espírito Santo.
Núcleo de estudos em Percepção Ambiental / NEPA
roosevelt@ebrnet.com.br

Andressa Kalil disse...

Olá,
Queria recomendar uma loja virtual para comprar orgânicos no Rio de Janeiro, se chama Saúde Delivery (http://www.saudedelivery.com.br/). Eles só trabalham com produtos certificados, e produtores tradicionais. Vale a pena experimentar.
Att,
A