sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Hortaliças em extinção por causa das “tentações vindas da cidade”.


Opções saudáveis voltam à mesa brasileira
Renato Grandelle, O Globo, 20 de setembro de 2009

Verduras e legumes esquecidos são recuperados em projeto que, até o final do ano, chegará a pelo menos mil pessoas.

Não se faz mais farinha de araruta como antigamente. A constatação é mais do que simples saudosismo. Como outros alimentos de alto valor nutritivo, a hortaliça, antes comum Brasil afora, parece ter entrado em extinção. E foi para proteger espécies como esta que o Ministério da Agricultura, criou, já em quatro estados brasileiros, bancos de multiplicação de verdura e legumes.

O programa é seleto: só entram plantas que praticamente sumiram das hortas.

O pontapé inicial do projeto foi dado em Minas Gerais, onde 60 famílias de Prudente de Moraes e Três Marias, na região central do estado, receberam mudas de hortaliças raras para cultivarem. Um ano depois, as conclusões ainda não foram convertidas em números, mas deixaram os agricultores satisfeitos. Segundo pesquisadores, o consumo de alimentos gordurosos e de refrigerantes diminuiu, especialmente entre as crianças. As guloseimas deram lugar ao que veio das hortas, produtos de maior qualidade nutricional.

Produtos cultivados têm pequena duração
Vinte e três hortaliças já foram incluídas no projeto. A quase extinção dessas espécies é atribuída à sua pouca viabilidade comercial. Além do lobby dos produtos industrializados, algumas plantas “em extinção” precisam ser consumidas, no máximo, dois dias depois da colheita. Não raro, o tempo é insuficiente para que cheguem às feiras. O prazo apertado para a venda desmotiva os agricultores.
– O apelo comercial de outras hortaliças, como tomate e batatas, é maior e inibe pesquisa em espécies como mangarito e jurubeba – explica Georgeton Silveira, coordenador de olericultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater – MG). – Com o cultivo das verduras e dos legumes que estudamos, a população ganha em recursos alimentares. O ora-pro-nóbis, por exemplo, é uma das plantas de maior valor protéico.

A comunidade do Bonfim em Três Marias, foi escolhida como um dos embriões do projeto.
Desde que um dos agricultores locais foi diagnosticado com colesterol alto, várias famílias passaram a controlar o consumo de gorduras e refrigerantes – ou como define a líder comunitária Ana Lúcia Fernandes, “as tentações vindas da cidade”.
– Como bater enxada cansa muito, era mais fácil fritar alguma coisa do que comer verdura – lembra. – Dia desses meu sobrinho me disse que não sabia que existia alface gostosa. Ele se referia à azedinha, uma das hortaliças cultivadas agora pela comunidade. Outra muito popular é o peixinho, que tem esse nome por lembrar um filé de peixe.

Algumas hortaliças incluídas no projeto são ricas em sais minerais, vitaminas A, B e C – ressalta a economista doméstica Faustina Oliveira, também da Emater-MG. – Essas plantas retardam a formação de radicais livres, que causam o envelhecimento. Também aumentam a imunidade do organismo, especialmente contra doenças infectocontagiosas. Com a inauguração de duas novas unidades em Minas, na Zona da Mata e no norte do estado, o projeto deve mudar, até dezembro, a dieta de mil pessoas. Também há bancos de multiplicação de hortaliças não convencionais em Pernambuco, Mato Grosso e no Distrito Federal.

A ordem, porém, é apertar o cinto. Duas carências atrapalham a expansão do programa de verduras e legumes: a falta de recursos e de mudas e sementes das espécies estudadas. Vinculada ao Ministério da Agricultura e coordenadora da iniciativa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) considera que o projeto ainda cumpre sua primeira etapa: catalogar as espécies e explorar a alimentação familiar.
- Estamos elaborando uma cartilha e um livro de receitas para que os agricultores saibam como cultivar e o que fazer com as plantas – explica Nuno Madeira, pesquisador da Embrapa Hortaliças. – Também vamos montar um manual técnico para quem estuda o assunto. A partir daí vamos saber que ação pode ser tomada com nutricionistas.

A vinagreira é conhecida por render produtos como o chá, já o maxixe é outra hortaliça que destaca-se pelo valor protéico. O Jambu está na lista das hortaliças raras e a araruta, também considerada pouco conhecida, rende biscoitos.

Pesquisadores vão trazer projeto ao Rio
O Rio só deve receber o seu primeiro banco de multiplicação das espécies raras no segundo semestre do ano que vem. A Embrapa ainda não decidiu em que região fluminense vai instalar o seu laboratório. Com a escolha será possível definir as hortaliças cujo cultivo será realizado por aqui.
– Investimos nas espécies que vão se adaptar melhor ao clima local – explica Madeira. – No Nordeste, usamos hortaliças acostumadas ao tempo mais seco. No Rio, podemos cultivar verduras e legumes que já foram comuns no estado, como a taioba e a araruta. O mangarito também era muito popular inclusive entre os índios.

Enquanto a Embrapa não monta sua base local, o cultivo de hortaliças raras ainda é feito de forma isolada por agricultores. Proprietário de um sítio em Bom Jardim, no interior do estado, Dejair Lopes mantém seis variedades de araruta.
– Cultivamos um hábito alimentar que não vai mudar de uma hora para a outra, mesmo havendo uma alternativa mais nutritiva – opina Lopes. – Nada contra o trigo, mas é possível fazer pão usando outras farinhas, inclusive araruta. Infelizmente poucos agricultores cultivam hortaliças como essa.

As espécies estudadas:
Almeirão-de-árvore
Araruta

Azedinha
Beldroega
Bertalha
Capiçoba

Capuchinha
Cará

Caruru
Chicória-do-Pará
Cubiu

Jacatupé
Jambu
Jurubeba
Mangarito
Maxixe

Maxixe-do-reino
Ora-pro-nóbis
Peixinho
Serralha
Taioba
- acompanhada da pimenta biquinho!
Taro
Vinagreira

As receitas não são minhas, mas de Neide Rigo do Come-se, basta clicar nos links acima.
Na dúvida, todos os verdes, como serralha, almeirão, azedinha, ora-pro-nobis, beldroega... rendem saladas incríveis. Em Goura, as saladas são assim, feitas do que a horta dá - as melhores que já comi.

A araruta rende uma farinha branquinha que tradicionalmente vira biscoito caseiro, mas que eu uso para tudo no lugar de maisena e farinha branca. Comprei orgânica na feira do Russel e já fiz até molho madeira com ela.

Minha mãe fazia a bertalha refogada no "bafo" com ovo, assim:
refogue um dentilho de alho no azeite aromatizado, junte a bertalha lavada e picada, mexa e quebre um ovo por pessoa por cima, abaixe o fogo e deixe cozinha no "bafo". Está pronto quando a gema estiver dura, sal e pimenta por cima. Simples, rápido e uma refeição completa.

Pena um país com tanta terra e de climas tão bons, cuja primeira descrição oficial foi "uma terra onde se plantando tudo dá", só cultivar meia dúzia de hortaliças, perdemos todos em qualidade e quantidade.



Mais informação, hoje no IG, os maiores chefs do mundo rendem-se à culinária tradicional em respeito às suas próprias raízes: Raízes do México e do Brasil e Não há inovação sem raízes e não há raízes sem inovação.

4 comentários:

Anônimo disse...

Quero resgatar a araruta e o mangarito mas não consigo encontrar por aqui, se alguém souber quem vende ou disponibiliza mudas(rizomas e batatinhas) de araruta e mangarito, por favor me informe!
Meu email é claudiare23@hotmail.com, Obrigada,
Cláudia
Uberlandia_MG

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Claudia, entra em contato com o pessoal da Araruta da Bahia:
contatoararuta@hotmail.com

Mari Vieira disse...

Das verduras acima, eu conheço e planto taioba, almeirão roxo, orapronobis, serralha nasce espontâneamente nos vasos e azedinha. Mangarito e maxixe são da minha infância. Amo! Planto em vasos.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Mari, que barato ver uma postagem de 2009 sendo lida e comentada! Boa sorte com sua hortinha, Carolina